Entre a sede e a censura: a batalha dos bebedouros no Centro de Educação



"Numa conjuntura onde os direitos elementares dos estudantes são constantemente retirados: ou a revolta estudantil conjura a reação ou a reação conjura a revolta estudantil." — Coletivo Mangue Vermelho.

“O marxismo consiste em milhares de verdades, que podem todas ser resumidas em uma só, de que a rebelião se justifica.”

— Presidente Mao Tsetung 

A seguinte crônica narra uma das lutas mais duras travadas na Universidade Federal de Pernambuco no último semestre, onde os estudantes do povo se comprometeram em desafiar o imperador, incansavelmente, servindo de exemplo em todo campus através de batalhas cotidianas com a burocracia universitária.

Desde o retorno presencial, ficou escancarado aos estudantes o grau de sucateamento da Universidade Federal de Pernambuco. Centros sem bebedouros, bolsas de assistência reduzidas de forma considerável, demissão dos trabalhadores terceirizados, além das salas sem ar condicionado numa região onde não é anormal a sensação térmica chegar aos 33° graus — e o tão prometido Restaurante Universitário, em seus quatro anos negados aos estudantes.


No Centro de Educação, o que mais pesou foi a falta dos bebedouros e dos micro-ondas, algo falado cotidianamente entre os estudantes. A Direção do CE, ao invés de se retratar com a comunidade estudantil, se reunia as portas fechadas com a chapa única da UNE concorrente ao D.A de Pedagogia que nem havia tomado posse. Desta forma, o problema dos bebedouros ficou nas mãos do movimento estudantil independente através da Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia (ExNEPe), historicamente atuante no CE, que também já estava organizando o Pós-Encontro Nacional dos Estudantes de Pedagogia realizado no dia 28 de julho.

A realização do evento, organizado de forma independente pela C.O (Comissão Organizadora) que tomou a concretização da atividade em suas próprias mãos, que contou também com o apoio do nosso coletivo, se deu num momento de extrema insatisfação dos estudantes com a falta de garantias mínimas de permanência dentro do Centro de Educação, como já dito, onde anteriormente, em menos de uma semana, estudantes prepararam um massivo abaixo assinado por bebedouros e micro-ondas, resultando em 523 assinaturas e numa vigorosa campanha por condições dignas no CE.

Os preparativos para o evento iniciou-se pela manhã com uma célebre colagem de cartazes em que diziam: "Não dá para estudar com sede! Conquistar os bebedouros com luta combativa!", "Em defesa de condições dignas no CE! Pelas trancas das portas do banheiro feminino!", "Chega de burocracia! Pela reabertura imediata do RU para todos!". Algumas das palavras de ordem expressas foram: "- Calor, + ar gelado, por todas as salas com ar condicionado!", "1, 2, 3, 4 mil ou parem os cortes ou paramos o Brasil!", "Pedagogia é pra lutar!", "Ou reabre o RU ou vai ter ocupação!".

Todo evento seguiu os critérios qualitativos da ExNEPe, enriquecendo todo o debate reivindicativo acerca da luta política que entorna a educação e a formação do Pedagogo. A finalização do evento deu-se de forma magistral onde os estudantes presentes, colocando em prática a luta na defesa de permanência nas universidades, ergueram seus cartazes animosamente e partiram para uma manifestação para a entrega do abaixo assinado exigindo bebedouros, micro-ondas e condições dignas de permanência. 

Os estudantes, vibrando pela combatividade, estremeceram todo o CE com as palavras de ordem: "Pedagogia é união! Não deixe o MEC acabar com a educação!", "Pedagogia é pra lutar! O imobilismo não vai nos segurar!", "Avante, avante, avante juventude! A luta é o que muda! O resto só ilude!", "Ir ao combate sem temer! Ousar lutar, ousar vencer!". Estudantes presentes também reivindicavam a abertura do RU, e outras convocavam os estudantes a "ocupar a casa do reitor Alfredo" - por fim, a última palavra de ordem expressa foi: "Chega! Chega! De burocracia! Ou abre o RU ou ocupamos a reitoria!"

Como reduto do REItor e Czar da UFPE, a burocracia do Centro de Educação - cães de guarda da antidemocracia universitária que são - impediu que os estudantes colassem seus cartazes no hall, porém, isso não foi suficiente para apagar o ímpeto destes que vão reerguer um novo tipo de movimento estudantil para varrer toda podridão que paira sob a Universidade Federal de Pernambuco.

A vitoriosa atividade foi expressão máxima das reivindicações dos estudantes de pedagogia e de outras licenciaturas do CE em consonância com a ExNEPe, contando com participação ativa dos ativistas do Mangue Vermelho, refletindo a capacidade da persistência dos estudantes independentes e desmascarando de uma só vez estes que se escondem sob fraseologias desprovidas de conteúdo.

Contudo, o mês de agosto iniciou-se com um aviso estranho que chamou a atenção de toda comunidade estudantil. Oficialmente, a Diretoria do CE afirma que é necessário pedir autorização para colagens de cartazes. O recado foi dado poucos dias após a realização do Pós-ENEPe, como já denunciado pela entidade da Pedagogia em seu portal.

Numa conjuntura onde os direitos elementares dos estudantes são constantemente retirados: ou a revolta estudantil conjura a reação ou a reação conjura a revolta estudantil

Como isso se demonstra na concretude? É só observar os levantes contra os acordos do MEC/USAID de 1968 até a união camponesa e estudantil no Araguaia, passando pela Conquista da Gratuidade até a histórica primeira derrubada de um Reitor pelas mãos estudantis na Greve da UNIR, e, atualmente, na censura estabelecida na mesma UNIR, também na perseguição estudantil erigida na Resolução 4/2022 do Conselho Administrativo da UFPE, e, claro, nas vitoriosas Greves de Ocupações por todo país: o caminho democrático-revolucionário do movimento estudantil sempre aguçou toda justa revolta, concomitantemente, atiçando a sanha reacionária para freá-la.

Na verdade, o reduto específico da burocracia universitária do CE, pela sua proximidade com o atual Reitor (que é ex-diretor do mesmo centro), cumpre magistralmente o seu papel enquanto tal.

O Professor Evson Malaquias, na luta pela mudança do nome do Auditório do CE que homenageia um representante do regime militar fascista, foi perseguido e censurado pelas suas posições. Em entrevista ao jornal A Nova Democracia, afirmou:

"Para a burocracia atual, o único espaço legítimo é aquele que ele pode controlar: local de reuniões de professores. Por exemplo, a minha chefia levou uma proposta ao Conselho Departamental (dominada por docentes) para SUSPENDER o debate sobre a mudança do nome do auditório. Só aceitava discussão, em último caso, se fosse nos órgãos da burocracia. O debate não pode e nem deveria ser público. Quem quisesse debater o tema estaria “proibido”, precisaria pedir autorização à direção. Por sinal, colocar cartazes diversos no Centro de Educação estão proibidos atualmente: precisam ser autorizados pela direção e, caso sejam aprovados, só poderão ser colocados nos murais estabelecidos pela mesma. Precisamos de bolsonarismo? Essa é a esquerda do Centro de Educação."

Isso não foi suficiente para paralisar os estudantes em luta, logo conformando um comitê de lutas para acelerar a conquista dos bebedouros. Porque quem escolhe esse caminho sabe que há de persistir. Não era incomum observar cartazes colados no quadro de avisos ironizando e protestando a censura dissimulada instaurada. Também não era atípico nossos companheiros e companheiras ter que encarar certos professores que utilizaram da sua liberdade de cátedra para desautorizar passagens em salas, fazendo coro com a censura e os ataques a democracia universitária cada vez mais restringida... 
Isso só poderia ser sintomático do único centro que estampa Paulo Freire na fachada ao mesmo tempo que homenageia um colaborador do regime militar.

Em uma das panfletagens realizadas, no início de setembro, uma burocrata da Direção do CE questionou se éramos nós que estávamos "chamando o Centro de Educação de fascista". Foi curioso nossos companheiros ter de explicar o conteúdo do panfleto para alguém com Pós-em-tudo. Oras, ninguém chamou o CE de fascista mas sim que a burocracia universitária estava sendo conivente com o sucateamento da universidade, pois além de garantir todo conforto do mundo em seus gélidos escritórios, censuram os estudantes em luta. 

Ainda no mesmo diálogo, tentou nos provocar convidando para uma reunião "todos que estão achando ruim a situação", onde respondemos, firmemente, que só vamos participar de uma reunião com a Diretoria do Centro de Educação se convidarem toda comunidade estudantil do local! A burocrata em questão, fingindo concordar, afirmou que iria passar nas salas para convidar os estudantes para uma reunião — o que se comprovou como mais uma de suas mentiras, já que o aviso não ocorreu e muito menos a reunião.

O que há de errado em reivindicar uma necessidade estudantil? Os estudantes peregrinam encaixotados nos transportes públicos caríssimos e de péssima qualidade, desidratando diante do típico calor recifense, enquanto dá sua cota de sacrifício diário para conseguir estudar minimamente na UFPE. Nosso coletivo entende que toda e qualquer revolta estudantil se justifica pois é a única forma possível de conquistar o que é dos estudantes do povo por direito, ja que todo movimento estudantil burocrático se encontra em estado de falência diante da urgência do momento. E os fatos na UFPE comprovaram a máxima: Rebelar-se é justo!

Estudantes confeccionam mural de lutas na sala do D.A. Pedagogia — Remís Carla. Foto: MV.
Diante dos cortes do mês de outubro, o MV se empenhou em continuar impulsionando as passagens em salas e panfletagens, tratando de participar da reunião aberta da Reitoria com os estudantes. Lá, a ExNEPe serviu de caixa de ressonância da Greve de Ocupação que permeava todo país. Tomando os companheiros como exemplo, o Mangue Vermelho fez sua fala desmascarando a burocracia universitária e seu discurso colocando a farsa eleitoral como depósito das necessidades estudantis.

Ainda neste dia, no turno da noite, o Coletivo Mangue Vermelho fez passagens em salas em todas as turmas do curso de Pedagogia para mobilizar os estudantes para uma assembleia puxada pelo DCE e denunciar as condições de insalubridade impostas aos estudantes do povo, relembrando as lutas que Remís Carla e seus companheiros travaram no CE — nesse mesmo centro que, inclusive, com ocupação conquistaram os antigos bebedouros — onde foi apontado que esse é o exemplo de luta a ser seguido. Os estudantes aplaudiram, saudavam e seguravam os panfletos com toda sua firmeza quase como se fossem seus donos; como se as palavras ali expressas também fossem suas.

Magicamente, em menos de vinte e quatro horas dessa vitoriosa atividade, novos bebedouros foram instalados no Centro de Educação. Comemoramos a vitória na pseudo-assembleia que não bateu o quórum, ja que fomos a única força política do centro que se preocupou em mobilizar presencialmente.

Nessa ação realizada no Hall do CE, nas barbas dos conjuradores da censura, denunciamos o imobilismo da UNE (que no momento assistia de cabeça baixa), assim como a censura que tentou impedir os legítimos democratas em luta (professores e estudantes), exaltando o saldo da persistência que tornou essa conquista algo material — sendo o único centro da universidade com novos bebedouros! Nosso coletivo foi saudado e aplaudido pelos estudantes presentes, as palavras de ordem É greve, é greve de ocupação! Nem sucateamento, nem privatização! e Cresce, cresce, por todo Brasil! O novo movimento combativo estudantil! chacoalhavam todo firmamento, onde não faltou comentários de estudantes tratando de tomar essa posição como exemplo em seus respectivos centros.

No mesmo momento, uma estudante de Pedagogia vinha agradecer nossa fala, lembrando que tinha confeccionado um cartaz exigindo as trancas no banheiro feminino, e que resultante da luta persistente, as portas dos banheiros estavam com novas trancas, assim como mais salas estavam com ar condicionado, e o tão falado micro-ondas havia sido colocado. Na verdade, a nossa vitória também se refletia nessas atitudes que podem parecer pequenas (apenas nas aparências dos fenômenos) mas que são partes concretamente essenciais da totalidade da luta estudantil.

Em outros momentos históricos, as classes populares quando submetida ao regime da falta d'água, desafiou impérios e imperadores para levar a cabo sua reivindicação — que de econômico, logo transformava-se em luta política — como aconteceu nos recentes protestos iraquianos em Basra, também como exemplo tem a Guerra de Cochabamba na Bolívia, ou, sem precisar ir tão longe, no multitudinário levante do povo de Ouro Preto contra a privatização da água que acontece neste exato momento.

Verdadeiras guerras já foram e serão declaradas por conta do que pode parecer algo tão singelo mas que provoca a fúria mais elementar do povo. E no CE, algo não muito diferente aconteceu e só foi conquistada através do nosso caminho: classismo, independência e combatividade!



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