Levantes espontâneos e as tarefas do atual período
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| Hu Yichuan – Para o front (1932) |
Interroga a noite da pátria e ela te dirá o amargo dos dias que vêm:
neles trocaremos a canção pelo grito,
a mão inofensiva pelo punho violento,
os livros e a caneta pelo rude fuzil.
Roque Dalton - Perguntas, perguntas…
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Nos aproximamos de
um período rico em levantes espontâneos. Por determinado período, foi costume se deparar com o encaminhamento de
qualquer revolta popular para a capitulação ou o economicismo (horizonte imediato, “pragmatismo”). Isso se deu, por um lado, pela relativa ausência
de liderança radical que pudesse elevar as condições subjetivas de um processo
de luta para além de sua realidade objetiva, prolongando sua vida útil; por
outro, pela hegemonia do oportunismo, em organicidade e ideologia, sobre os
movimentos sociais.
Dito isso,
defendemos que se aproxima um outro período, que exigirá muito dos militantes e
organizações radicais. Uma mudança cujas condições objetivas são:
1. A crise global do imperialismo, que se manifesta de forma irregular e
descompassada, mas que é inegável. Em nosso país, isso significa a
intensificação do descontentamento popular e das situações de luta econômica.
2. A crise geral das organizações oportunistas, que se desmoralizaram durante as últimas décadas frente às massas, e que já não são mais bem recebidas pelo simples fato das condições atuais exporem com cristalina transparência a sua ineficiência frente às demandas - especificamente, as que exijam pensar fora da legalidade de um estado que está em gradual processo de fascistização.
3. Com isto, a crise das ideologias oportunistas se manifesta com força, por não dar norte nem ânimo para as massas. Mesmo em seu reduto histórico, a academia, estão perdendo espaço, sendo inquiridas por sua incapacidade de produzir resultados e pessimismo generalizado.
4. A substituí-las, por um lado, o avanço voraz de um projeto ideológico
fascista difuso, com características
inexatas e cuja base principal é um populismo de direita que, incapaz de
alimentar uma população cada vez mais furiosa apenas com promessas de reforma
do estado burguês, apresenta como agravante uma promessa de caça às bruxas,
ainda que seja do comunismo entre aspas. Isso significa que qualquer processo
de luta espontânea, que em determinado momento tinha como últimas instâncias a
capitulação ao oportunismo (centrista ou de “centro-esquerda”), agora soma às
suas possibilidades um horizonte fascista.
Por outro lado, um
projeto ideológico radical que lentamente se descola do beco sem saída dos
propósitos burgueses e pequeno-burgueses é aparente; mas ainda está em processo de amadurecimento teórico,
e, principalmente, de aprendizado com a prática.
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Apesar de que não
existe um único momento em nossa história em que haja vazio de lutas, sua
massificação e impacto regional ou mesmo nacional é condicionado por diversos
fatores que muitas vezes independem das boas intenções ou da radicalidade do
processo. O principal é a falta histórica de liderança radical e de qualidade
político- ideológica, que seja capaz de prolongar a vida útil
de um levante, o secundário é a
dinâmica geral do imperialismo. É importante reforçar
isso para enterrar
a suposição de que os “momentos para radicalidade”
caem do céu. Nessas condições, o movimento popular espontâneo em seu processo
de violência se torna reativo e sua dinâmica é descompassada, intermitente e
sem continuidade.
Nisso, dois espaços
de tempo se sucedem, determinados por sua dinâmica interna e reativas às influências externas: um período longo de
relativa imobilidade e acumulação;
e um curto, de excitação e violência
- que perde o fôlego e retorna muito rápido ao estado anterior.
Devido ao marasmo do período longo,
há de se pensar que há diferença qualitativa entre os dois períodos, e rapidamente imaginar a existência de
uma situação revolucionária onde ela não existe. Porém, a rapidez com que o período de excitação retorna a
seu estado inicial sugere que ambos períodos fazem parte da contradição
existente em um mesmo período histórico, portanto, que sua diferença é
quantitativa. Significa que vai continuar repetindo-se indefinidamente se deixada à suas últimas consequências.
A identidade dessa
contradição sendo a falta de liderança,
somente a geração de uma liderança forte, no seio desse mesmo período,
pode criar as condições necessárias para que ele seja superado: o salto de qualidade leva, portanto,
a um período de luta prolongada e encabeçada por sua liderança, onde as contradições serão outras (período de ofensiva e defensiva, por exemplo).
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Mas não adianta
especular sobre um momento histórico que ainda não chegou e que, de fato, nunca
existiu em nosso país. Devemos, portanto, compreender as particularidades do
período em que estamos e projetar as condições necessárias para que ele seja
superado.
Dessa realidade
onde é correto dizer que, a nível nacional, a tendência geral é “água morna”, vão surgir duas posições principais e igualmente ingênuas
ou maliciosas quanto ao papel da militância. A primeira
afirma que, pelo primeiro espaço de tempo ser
longo e o segundo curto, se deve compreender o povo como se seu estado
natural fosse imóvel e passivo. A segunda afirma que, pelo primeiro espaço de
tempo aparentar ser rotineiro e o instante febril, o que deveríamos fazer seria
esperar sempre até a fatídica gota d’água, para que uma rebelião aconteça,
justificando então a existência e envolvimento de um grupo radical.
Ambas as posições
são, em última instância, anti-povo e denotam traços de preguiça e impaciência
na militância. São incapazes de conceber a relação contraditória entre os dois
períodos que se apresentam, de como
um acumula a energia que se esgota
no outro; de que o vazio
político resultante desse esgotamento a razão pela qual o primeiro
custa em amadurecer. Consequentemente, uma posição ignora a luta prolongada e a
outra, a luta pontual; sendo isso em conformidade teoria-prática ou não. Na verdade, ambas posições também parecem
existir igualmente numa espécie de contradição, onde muitos adeptos da segunda
tese chegam indiretamente à primeira posição por exaustão.
Como já foi posto,
nenhuma das duas posições nos apetece; são posições, finalmente, de quem não quer responsabilidades quanto
à radicalização da sociedade, o que requer militância e teoria mais ousada e
materialmente fundamentada. Conquanto haja superação desse período, alcançamos
sua síntese: uma luta que é prolongada, permanente e orientada, e cujo ritmo
dita as massas e seus líderes, e não o “agente externo”.
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Claro que, ao
rejeitar - ainda que reconheçamos ser de maneira abstrata e sem alvos claros -
a inépcia da forma particular de oportunismo que se reduz à espontaneidade e ao pragmatismo; podemos atrair o
carinho dos burocratas e comandistas, que mantém um preconceito anti-povo
velado em crítica semelhante. Aqui não há espaço para isso: nos limites que o
tempo nos impõe, se podemos ser
claros quanto a uma tese é a de que somente
as massas fazem a história, as massas sendo categorizadas como os setores
avançados das classes revolucionárias de determinada realidade. Os limites
economicistas não serão superados senão pelas próprias massas que, em seu processo de luta, constroem seu próprio
horizonte e suas lideranças. A relação entre as massas e a organização radical
delas surgida é, portanto, dialética.
Isso quer dizer que
a origem, em última instância, não é determinante de linha. Há dezenas de exemplos do oportunismo
brasileiro, que vem quase que inteiro da luta de massas e que, apesar
de seus patéticos chamados à nostalgia, pouca
relação tem com a “sua base”.
A chave é ser capaz de resolver sempre a inevitável contradição que sempre
surge entre uma organização e as massas de onde ela parte.
Contradição
não-antagônica que existe, pois, a organização é orientada, estruturada, possui
verdades concentradas e é limitada; por outro lado a massa é dispersa,
espontânea, possui verdades difusas e é expansiva. Contudo, como dito antes, se
a única tese que nos é central é que as massas fazem a história, essa contradição precisa ser resolvida para que a organização possa de fato ser ferramenta de libertação de seu
povo, implicando em liderança: qualquer erro ou insuficiência em sua aplicação
leva ao isolamento (oportunismo de esquerda) ou à absorção do economicismo
natural da espontaneidade (oportunismo de direita). A forma de resolvê-la, a
que consideramos não só ser a única resposta prática à tese apresentada quanto
a única forma verdadeiramente revolucionária de liderança, é a teoria da linha de massas.
Se trata de
combinar investigação e integração na prática social (produção, luta de
classes, experimentação científica), aplicar a teoria materialista do
conhecimento (prática-conhecimento-prática) no movimento real da sociedade.
Assim, coletar as ideias dispersas e à deriva entre as massas. Transformar o
conhecimento perceptivo em racional, sintetizando-o mediante à teoria, e
transformá-lo em uma linha. Tornar a linha força material ao engajar as massas
em sua aplicação. Repetir o processo.
Nota-se que a resolução dessa contradição - a linha - mantém intacto a identidade da organização (política no comando) e das massas (fonte da compreensão do movimento social), evitando, assim, a reacionária compreensão da dialética como dois se conformam em um, no caso, caracterizando-se como a proposição de “partido de massas” ou “partido de tendências” (que, na melhor das possibilidades, reduz a política da organização ao mínimo divisor comum, o economicismo). Só com esse método é capaz de combinar as particularidades de ambas partes em uma poderosa força capaz de transformar a realidade.
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Nos estruturamos
com a forma de organização de massas, e, apesar de usarmos um método coerente
de direção e confiarmos em nossa linha;
temos plena consciência que é uma forma inferior à forma organização de vanguarda. O movimento de massas, claro, gerará sua vanguarda, mas que não se conforma
como vanguarda de toda uma classe,
mas como vanguarda imediata, interna
ao próprio movimento e com severas
dificuldades e limitações. Não é por acaso que a tendência geral das
organizações de massa é a liquidação ou seu deslocamento ao radicalismo
pequeno-burguês, quando não ao oportunismo. Só a organização de vanguarda é capaz de transformar o acúmulo
cíclico da espontaneidade em um acúmulo em espiral, com rupturas e saltos de
qualidade.
Por isso, nossa
responsabilidade como organização é em se aproximar o máximo possível da
política de vanguarda, seja em condicionar nossos membros ao estudo militante, à responsabilidade política
e ao domínio da investigação e da linha
de massas; concomitante à
firme luta de duas linhas para depuração de toda
posição que nos encaminhe para fora do caminho revolucionário.
Portanto, surgindo
como organização de massas, o Coletivo
Mangue Vermelho nasce por esse caminho e estabelecerá
duas condições organizativas iniciais para manter-se nele: internamente, estudo militante, objetivando o domínio
das teorias políticas e filosóficas que nos regem; externamente, investigação ativa, buscando ser energia
determinante nas lutas das massas que existem e que se intensificam com a
situação política posta. Não perderemos um segundo que não seja em preparação;
ao mesmo tempo, não simplesmente ficaremos parados esperando – nos preparamos
mediante à prática social. Conseguindo combinar as duas condições, daremos um
salto de qualidade organizativo que nos encaminhará para outra etapa com outras
condições dominantes. Somente combinando essas duas condições
seremos capazes de atender
às demandas do período.
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Quais são as tarefas do período? Como vanguarda imediata, podemos cair com muita facilidade numa visão unilateral dos fenômenos e, com muita facilidade, cair no subjetivismo do populismo ou do dogmatismo. Contudo, nossos membros possuem acúmulo em movimentos sociais de origem diversa, sujeitos da radicalidade das rebeliões de massa; e não podemos deixar o medo de errar nos impedir de avaliar nossas tarefas. Isso é um erro que levaria à especulação sem fim e nos roubaria da possibilidade de aprender com nossos enganos. Portanto, partindo da avaliação de que estamos, de um lado, submetidos à falência das instituições e à beira do fascismo; por outro, avistando a intensificação do movimento de massas espontâneas mediante a vacilação do oportunismo; elegemos que as tarefas imediatas das organizações de massas são:
1. Fazer da demarcação com o oportunismo um ato de pedagogia popular. Velhas ilusões não duram para sempre, mas também não caem sozinhas. Não podemos deixar a pecha de "sectarismo" permitir que haja dúvidas entre as massas quanto a quem disputa sua influência. Não há tempo e nem justificação para "coexistência pacífica" com quem encaminha o povo ao legalismo de um Estado em processo de reacionarização, seja conscientemente ou não.
2. Fincar nossas raízes nas massas lutando para desenvolver o seu
protesto, aplicando com firmeza a
linha de massas como único método revolucionário e que garanta o avanço da
coletividade. Combinar investigação, análise e síntese com agitação e
propaganda para confirmar um programa capaz de consolidar liderança. De especial importância são as situações de rebelião (essas que
são não-cotidianas), onde as massas são mais avançadas e já apresentam uma subjetividade inclinada
a destacar-se, produzindo material programático.
3. Servir, através de nossas ações, ainda que com os tropeços de quem
aprende a andar, à reconstrução da organização de vanguarda de toda a classe.
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Portanto, tomemos
com firmeza a decisão pela luta
contra os inimigos do povo, seja de que cor se pintem: assumir a linha vermelha do movimento de massas para
acirrar as lutas em direção a um processo de transformação da velha sociedade;
estreitar o elo entre a teoria revolucionária e a força objetiva do povo
organizado. A teoria quando apreendida pelas massas também se torna força material.
Sim, defendemos que
estamos entrando em um novo período, com inquietações acumuladas que irão explodir
muito mais violentamente que 2013 ou 2015. E, da mesma maneira que especialmente 2013 foi
essencial para peitar o oportunismo e condená-lo ao sepulcro; o período que se aproxima nos lança semelhante desafio,
e temos que estar à par da necessidade histórica.
Por todos os lados,
os inimigos avançam implacavelmente como se atando um nó de torniquete. Não
medirão esforços para condenar nosso povo à podridão e à miséria. O cerco
avança, e o primeiro passo é negar a herança da conciliação. Conformar uma
política acertada a uma moral compatível. Avançar com a linha de massas – pois
são as massas fecundas como terra de aluvião. Avançar, com a dificuldade com
que se empurra com as pernas a lama do mangue. Romper o cerco. Mais do que
nunca, obstinação, sacrifício e dedicação para que as lutas reivindicativas
sejam solidificadas, alçadas a lutas políticas, prolongadas em direção à luta
pelo poder. Se preparar à luta em meio a ela.
